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Blog de luizbelas
 


Desencontros nas relações entre pessoas, incluindo, neles, os casamentos.

José Luiz Belas / MARÇO 2005
Continuação do texto Terapia de Casais (revisão)


Uma pessoa, há poucos dias atrás, me escreveu perguntando:

“Quando, em que fases do casamento, ocorrem as crises, e como superá-las?

Quais dicas poderiam ser dadas às mulheres para que elas possam superar essas crises, e viverem felizes com seus maridos? "

Minha resposta:

         Primeiramente, considero que essa estória de crise dos 2, 3, 5 anos, etc., é uma grande ficção. Essas "idades do casamento" não tem nada mais a ver, pois a instituição casamento, hoje, tem características muito diferentes daquelas de 10, 20, ou mais anos atrás. As formas atuais de união são muito diversificadas, e as pessoas hoje possuem uma percepção da vida, e do mundo, muito mais complexa.

         Segundo, a superação das crises do casamento depende do casal e não somente de um dos cônjuges. Por isso, quando você diz: “para que elas (as mulheres) possam superar essas crises, e viverem felizes com seus maridos", não creio que essa proposta seja a mais justa e a melhor solução. Para mim, a verdadeira superação da crise conjugal só é viável com a participação atuante dos dois: marido e mulher.
Se assim não for, se o problema ficar apenas nas mãos da mulher (ou só do homem), o que pode acontecer é uma falsa solução. Ele, ou ela, contornará a situação, abrindo mão de direitos seus, mas carregará, dentro de si, uma frustração que acabará por lançar, na vida familiar, algum tipo de desconforto, e "algumas gotas de vinagre" que azedarão, com o tempo, o relacionamento do casal e da família como um todo.

         Terceiro, mais do que regras simples para detectar e consertar o que não está funcionando bem numa vida a dois, talvez seja interessante que cada pessoa ( casada ou não, jovem , adulta ou já na terceira idade) possa entender o que provoca desencontros nas relações entre pessoas, incluindo aqui os casamentos.

         Há mais de três décadas de trabalho em consultório, atendendo todo tipo de cliente, tenho aprendido, com os casais que me procuram para terapia, que um dos fatores mais influentes no surgimento de desajustes na vida conjugal é o despreparo de cada cônjuge para lidar com a DIFERENÇA que existe entre eles. As conseqüências do óbvio fato de que eles são duas pessoas, portanto diferentes uma da outra, no dia-a-dia da vida a dois, são indiscutivelmente, trágicas. Talvez por ela (a diferença) ser uma fato tão óbvio, não lhe damos o valor e importância que merece.

         Quando uma pessoa escolhe uma outra para namorar, ficar, noivar, casar, quase sempre surge um sentimento de estar se aproximando de alguém que a atrai pelas "semelhanças". Geralmente elas gostam do mesmo tipo de filme, torcem por um mesmo time de futebol, apreciam freqüentar lugares semelhantes, etc. Eles, em outras palavras, parecem falar a "mesma linguagem". A aproximação, portanto, ocorre pelas afinidades que há entre eles.

         Expressões muito conhecidas por nós, como por exemplo: “Almas Gêmeas”, “Cara-Metade”, “O Outro Lado da Maçã”, em princípio, sugerem que a busca é para encontrar, no outro, a semelhança e o complemento. A idealização do completo, do perfeito, do equilíbrio, do ajustamento e da felicidade.

         Entretanto, não há uma maçã com dois lados iguais, nem laranjas assim, nem rostos simétricos (por mais que possam parecer assim). O que existe na realidade são diferenças que podem se integrar, OU N ÃO, num todo harmonioso.

         Com o passar do tempo, a convivência vai mostrando a diferença natural que há entre pessoas em relacionamento.

         Há um ditado antigo que diz: "Pra se conhecer uma pessoa é preciso que se coma, com ela, um saco de sal”. Esse saco de sal , a que se refere esse ditado, pesa 50Kg e, como se pode entender, vai ser preciso uma vida inteira para se dar conta de uma quantidade de sal como essa.

         Também, com o passar do tempo de convivência, novos comportamentos, novos valores, novas atitudes começam a ser mostrados. Alguns são "agradáveis surpresas" outros "terríveis decepções". Alguns dizem que o outro é ainda melhor do que se imaginava que fosse. Outros, porém, dizem exatamente o contrário.
Interessante é que isso ocorre tanto com "ele", como com "ela". E mais interessante ainda é que parece que cada um deles só está receptivo para as "surpresas agradáveis", descobertas novas que são bem vindas. As outras são rejeitadas, indesejadas, negativas....

         Ora, na vida real as coisas não são bem assim. É compreensível que eu goste mais das coisas boas do que daquelas que me atrapalham, prejudicam, incomodam.
Mas, o que há de errado se ele quer ver o futebol à tarde, no domingo?
Mas o que há de errado dela querer sair, todos os domingos á tarde, para ir à casa dos pais dela (onde ninguém gosta de TV e abominam futebol)?

         Em princípio, isoladamente, vendo cada um dos cônjuges e suas aspirações para a tarde de domingo, ambos têm o direito de querer fazer o que dizem. Entretanto, para ele, esse querer que ela expressa pode ser uma bela bobagem e, para ela, ver futebol numa tarde de domingo pode ser uma perda de tempo tola e medíocre. Quem está certo? Quem está errado?

         É claro que o problema não passa por aí. Não há como se julgar esse comportamento dos dois. Por outro lado, mesmo não havendo uma proposta "certa ou errada" no que eles desejam, isso pode gerar uma maior confusão no relacionamento deles. É como se, numa esquina, um quisesse ir para a direita e o outro para a esquerda. Sem dúvida eles terão que resolver esse impasse. Mas, nem sempre essa solução aparece com facilidade, pois se cada um deles tomar o desejo do outro como algo que anula o seu próprio desejo, surgirá um ressentimento naquele que viu seu sonho destruído.

         Se aquilo que poderia me trazer alegria e felicidade (ver meu time jogar / ir à casa dos meus pais) me foi tirado pelo meu parceiro, guardarei dentro de mim essa mágoa. A partir daí vou me sentir menos amado pelo outro, menos compreendido, menos considerado...

         Provavelmente, situações como essa que citei acima como exemplo, não são vividas todos os dias nos relacionamento entre pessoas. Mas, tenho certeza, todas as pessoas em relacionamento já viveram algo igual ou semelhante, por uma ou inúmeras vezes.

         Quando isso acontece? Em qualquer momento da relação. Pode ocorrer nas primeiras noitadas de namorados, ou nas noites de núpcias, ou nas luas-de-mel, nos primeiros meses de casamento, ou depois das bodas de prata. Esse fato, aparentemente simples, talvez seja o tumor que mais mata os relacionamentos: a falta de diálogo, de compreensão e aceitação da diferença que existe entre um e outro.

         O Outro é o Outro, e nunca será o que eu idealizei que ele fosse. Sendo Outro ele é diferente de mim. Tem uma história própria e uma visão do mundo que pode ser até parecida com a minha. Somente "parecida".

         Possibilidade de um diálogo franco e aberto, onde o respeito pelo outro, como ser diferente de mim, se faça presente, com certeza é uma dos melhores meios para que se possa construir, e manter, uma relação saudável. Mas, para que isso aconteça, é necessário que cada cônjuge seja uma pessoa amadurecida, sensível e segura. É preciso também que, cada um deles não considere a vida conjugal apenas como o meio de realizar - única e exclusivamente - seu próprio sonho, mas que inclua, também nele, o sonho do seu parceiro.

         A ajuda que os casais procuram, ao buscar um atendimento psicológico, em via de regra parece nos dizer que eles ainda não alcançaram as condições que poderiam levá-los à solução de seus problemas através do diálogo suficientemente maduro e da aceitação consciente das diferenças que existem entre eles. Geralmente demonstram estar cheios de ressentimentos, o que dificulta muito escutar o discurso do outro, no aqui e agora. Acusações mútuas deixam transparecer o quanto cada um deles precisa mostrar sua “verdade” e negar a “verdade” do outro.

         Usando aqui a imagem criada por Rubem Alves, na sua crônica sobre casamentos, na terapia de casais os cônjuges teriam a oportunidade a aprender a jogar frescobol (onde o bom do jogo é jogar sem a preocupação de derrotar o outro) e desaprendessem a jogar tênis (onde a proposta do jogo é –apenas- ganhar do outro, sair vitorioso).

 

         Uma terapia de casal nem sempre faz com que o casamento seja mantido. Mas, caso isso ocorra, e uma separação for a única alternativa, espera-se que esta solução, decidida pelos dois, seja, mesmo assim, um “final feliz”.  Um final de uma etapa vencida e uma preparação para um novo momento da vida. Que surja daí um grande aprendizado através do qual, cada pessoa possa se rever, construir uma nova vida, mais plena, mais consciente do que seja viver à dois, do que é ter uma família e a responsabilidade que  tudo isso implica. 



Escrito por luizbelas às 16h25
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 TERAPIA DE CASAL

Quando a ajuda psicológica se torna necessária.

J.L.Belas-2000

INTRODUÇÃO

A expressão "terapia de casal" não me parece muito adequada para nomear a ajuda que muitos casais  buscam na clínica psicológica. Ela não descreve, de modo correto,  o processo do qual tenho participado, no dia a dia, com esses clientes que apresentam dificuldades nos seus relacionamentos conjugais. O ser humano vive em relacionamento, desde o instante em que é concebido. Seguramente, esta é sua experiência de vida mais antiga. Mas, mesmo que ela seja a primeira, não significa ser aquela que ele mais domine e sobre a qual mais aprendeu. Mesmo sendo a mais antiga, não é a mais fácil de ser vivida. Não. Lembro-me de uma expressão, criada por Sartre, que diz: "O inferno são os outros". De fato, relacionar-se e, principalmente, conviver com uma outra pessoa são constantes desafios para os seres humanos. No casamento, que é um relacionamento e uma convivência com características bem específicas, esta dificuldade adquire aspectos bastante próprios.

A vida de um casal é influenciada de maneira profunda e complexa por inúmeros fatores que envolvem cada um dos cônjuges. Sobre alguns desses fatores e sobre algumas características do relacionamento conjugal, é o que tentarei apresentar neste texto.

O CASAMENTO

Logo de início, na tentativa de encontrar uma resposta a esta pergunta, esbarramos na complexidade deste tema.

 Do ponto de vista jurídico, o casamento é um "contrato civil" entre duas pessoas, ou seja, é, na verdade, uma forma de "sociedade limitada” entre dois sócios e onde cada um deles é “proprietário” de 50% das ações. Nem mais, nem menos.
Juridicamente, cada cônjuge responde igualmente pelos compromissos civis assumidos por qualquer um deles. Em certos atos legais, fazem-se necessárias as assinaturas, de ambos, diante de um escrivão, etc.

Enfocando a relação por este ângulo, é fácil estabelecer graus de responsabilidades para cada um. Mas, se nos detivermos em outros aspectos da relação conjugal, é mais difícil fazer isto.

Para tornar mais prático o que quero discutir neste documento, denominarei de “psicológicos” os demais aspectos da relação conjugal, aqueles que escapam ao que chamei acima de “ponto de vista jurídico”.

A qualidade da relação conjugal decorre do nível de equilíbrio psicológico presente nos parceiros (“sócios”): marido-mulher, cabendo a cada um deles, do mesmo modo que “juridicamente”, 50% de responsabilidades.  Somente uma situação escapa a este critério de proporcionalidade: a presença em um dos cônjuges, ou em ambos, de algum tipo de limitação severa, física ou psicológica, que, de fato, o inviabilize. 

O que escrevo agora é, aparentemente, o óbvio: cada pessoa é única. A maneira de perceber a realidade é individual. Esta forma particular de ser de cada pessoa é construída ao longo de sua vida. A história de cada um de nós (tudo que nossa herança biológica nos permite elaborar, a partir de nossas interações como o mundo) determina o que somos e faz de nós seres únicos, diferentes uns dos outros.  Esta diferença inquestionável, que constitui o grande “nó” das ciências humanas, pode ocorrer em graus infinitamente variados. Por isso, é possível nos iludirmos e chegarmos a pensar que existam, de fato, os "iguais" ou os "complementares" (a "outra metade da laranja"). Para constatarmos o que acabo de escrever, bastam alguns minutos de conversa entre duas pessoas. Logo as discordâncias surgem e verificamos que elas são completamente diferentes. No máximo, podem ser “parecidas”. 

Quando ouvimos dois indivíduos falarem sobre certos temas, vemos que podem até usar as mesmas palavras, e expressarem os mesmos sentimentos, todavia, a semelhança entre eles é apenas aparente. Quando “vamos mais fundo”, querendo entender o que cada um deles quis dizer, com as palavras que usaram, verificamos que, ainda que tenham falado as “mesmas coisas”, não sentiram as “mesmas coisas”. Por exemplo, ao verem uma obra de arte, cada um perceberá aquela obra com “olhos diferentes”, portanto, estarão avaliando de modo bastante distinto o objeto que ambos denominaram de "lindo". O “lindo”, para um, não é o mesmo “lindo” para o outro. Esta “real” diferença, que existe entre todas as pessoas, mesmo entre aquelas onde ela se mostra de forma “sutil”, representa apenas uma parte pequena, mas altamente significativa da questão que estamos discutindo.

 

Pelo exposto acima, creio que a igualdade entre pessoas é impossível, a semelhança é raríssima, a diferença é a presença constante entre dois seres humanos. (Continua)



Escrito por luizbelas às 16h24
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continuação...

O FATO "DIFERENÇA", NO CASAMENTO

O que vou expor agora se aplica a qualquer relacionamento humano, mas, como o nosso tema aqui é o casamento hetero, focalizarei mais essa relação e os fenômenos que costumam acontecer nela.

Esse fato, "diferença", pode ser considerado um dos fatores principais para o surgimento dos "desencontros" e das "desarmonias" que ocorrem na vida conjugal. A diferença, à qual me refiro aqui, é o que determina a forma de percepção da realidade de cada pessoa. Em outras palavras, essa diferente maneira de cada pessoa ver a sua realidade  faz com que não exista somente uma verdade, única e insofismável. Cada um de nós tem a sua própria verdade, a sua maneira única de perceber o mundo ao seu redor. Essa constatação deveria ser suficiente para sabermos que não somos donos da verdade, mas esquecemos isso, passamos a acreditar que a única verdade é a nossa e que as dos demais são "opiniões equivocadas" ou inverdades. Dizendo de outra forma, "eu sei o que é certo, você, não",  ou "eu estou certo(a) e você está errado(a).

Este posicionamento extremo quase sempre está presente nos relacionamentos conjugais problemáticos. É relativamente fácil a gente entender o porquê disso. Essa rigidez de percepção não permite à pessoa entender que a sua realidade é VERDADEIRA para si e que a realidade do outro é igualmente VERDADEIRA para ele(ela). Quando há rigidez, o fato do seu(sua) parceiro(a) ter um modo de pensar diferente do seu deixa de ser somente um sinal concreto das DIFERENÇAS que existem entre duas pessoas  e passa a significar que o outro está CONTRA ela(e). Seria, então, a diferença entre as pessoas  a causa principal das dificuldades conjugais? Na realidade, não é bem a diferença que causa o problema no casamento, mas, certamente, tudo ficará mais complicado na relação  quando os cônjuges não aceitarem este fato e não compreenderem como lidar com ele.

Muitas pessoas confundem ACEITAÇÃO da diferença com CONFORMISMO ou ACOMODAÇÃO. É importante que se desfaça logo esse equívoco. Aceitar a diferença não é se conformar com ela ou a ela se acomodar, mas uma compreensão profunda de um dado da realidade que se impõe a todos nós: cada pessoa é única.

Esse dado que é tão óbvio, e a que já me referi linhas atrás, nem sempre se mostra assim nos relacionamentos humanos. Muitas razões existem para isso acontecer, mas focalizarei somente dois agora.

O primeiro é o medo que a pessoa tem de "perder sua identidade".  O segundo é o medo de ela perder o "domínio sobre o outro".

Portanto, aceitar a diferença de opiniões, sobre um mesmo fato, nem sempre é tarefa fácil, pois, ao se admitir que o outro esteja certo, teremos que admitir que estamos errados. Admitindo isso, teremos que fazer uma revisão de nossos valores  e de referenciais significativos, que regulam nosso equilíbrio psicológico. Aceitar a verdade do outro é admitir o nosso equívoco diante da nossa realidade, mas estes temas são muito complexos. Discuti-los aumentaria muito o tamanho deste texto. Num futuro documento,  deter-me-ei mais neles.

Mas será que as diferenças entre as pessoas são sempre sentidas como negativas pelo outro? Atrapalham a convivência? Sempre? Não. Elas, em certos momentos, até promovem uma aproximação. É o que geralmente acontece quando se inicia uma nova relação.

Quando os relacionamentos começam, essas diferenças podem ser o que "encanta" os parceiros. A novidade, a paixão, a curiosidade, o desconhecido, a surpresa, tudo isso provoca uma emoção e uma vibração que colorem o relacionamento com tons agradáveis. Mas, aos poucos, isso vai mudando, quase sempre a partir do reconhecimento e da constatação das diferenças que provocam desencontros de ideias em temas do dia a dia, considerados fundamentais dentro da perspectiva de cada um dos cônjuges. Isso, dito assim, pode parecer simples demais. Mas quero lembrar que esse fato é apenas um "detonador" de uma bomba, construída há muito tempo atrás, dentro de cada um deles, e diretamente ligado às suas histórias pessoais.

 

A HISTÓRIA DE CADA UM E O CASAMENTO

Quando um homem se aproxima de uma mulher (ou vice-versa) e os dois resolvem viver uma vida de casados, ao formalizarem esta união, trazem para  este novo momento de suas vidas duas histórias completamente diferentes (mesmo que elas pareçam ser semelhantes).

Essas histórias foram construídas através de um número infinito de experiências, entre as quais aquelas que, claramente, são responsáveis pelo nosso modo de percepção de nós mesmos, e que constroem grande parte do nosso “SELF”. Tais experiências vividas determinam  algumas características nossas, como, por exemplo: 1) Nosso modo de ver o mundo e a realidade ao nosso redor. Expectativas em relação ao sentido da vida. 2) Nosso modo de avaliar como as pessoas nos veem, o que esperam de nós, que ideias fazem a nosso respeito. 3) Nossos sentimentos pelas pessoas, nossa forma de ver o ser humano: como amigo, inimigo, confiável, não confiável. 4) O que esperamos de nós mesmos, nossa opinião em relação a nós mesmos como pessoa, nossa autoimagem, etc., etc. 

Essas quatro dimensões da construção do nosso EU são, a meu ver, fundamentais para se entender como a história de cada parceiro interfere na construção do relacionamento conjugal.

É claro que esse EU é construído por muito mais aspectos do que esses quatro que acabei de citar. Fatores tais como: a família na qual a pessoa foi educada; o grupo social ao qual pertenceu, principalmente durante a sua infância e adolescência; as características do momento político de seu país, de sua cidade; sua constituição biológica; sua formação religiosa; e milhares de outros fatores, todos eles compõem a matéria-prima para a construção do EU de uma pessoa.

As experiências familiares, sem dúvida, são elementos importantíssimos na determinação de certos posicionamentos e percepções que os cônjuges deixam transparecer e pelos quais lutam dentro do casamento.

Quase sempre os cônjuges reproduzem, na relação deles, o que aprenderam sobre a vida conjugal, sobre os papéis de mãe, pai, filhos, irmãos... e, frequentemente, repetem as falas e as ideias que seus pais, tios e  avós  lhes “ensinaram”. Essas figuras parentais são verdadeiros modelos que acabam sendo copiados, mesmo quando os próprios cônjuges os repudiam. Isso acontece como se eles fossem movidos por uma VERDADE, quase como uma lei, que se esconde nos níveis mais profundos do seu psiquismo. Quem eu sou? Como cheguei a pensar do modo por que penso? Em que coisas EU realmente acredito? O que quero construir para mim, agora e para o futuro? O que sinto por meu parceiro? O que é, para mim, uma família? Como devo ser como mãe ou  pai? Como quero educar os meus filhos?...

Estas poucas e simples perguntas já nos mostram um fato importante: cada cônjuge tem respostas bem diferentes para essas mesmas indagações.

Essa diferença tem origem no seu modo de ser, no seu modo de perceber o mundo, as pessoas e a si mesmo. Em outras palavras, em seu “SELF” (si mesmo).

É neste contexto de diferença entre os “SELVES” do casal que surgem os desencontros conjugais. E é, aí, nesse mesmo contexto, onde, paradoxalmente, reside a maior riqueza de tais relacionamentos.

Mas, para que esses "desencontros" se transformem em "riqueza", é fundamental que cada um dos parceiros compreenda, da melhor maneira possível, como o seu “SELF” funciona, e como ele dinamiza o seu comportamento no casamento.

 

A RELAÇÃO CONJUGAL COMO UM PRODUTO

“O casamento é a relação."

As queixas trazidas pelos casais, digamos assim, referem-se a "algo que existe ENTRE" os cônjuges. As dificuldades que existem nos casamentos, quase sempre, não estão nem NO MARIDO, nem NA ESPOSA. Os problemas mais frequentes surgem do resultado do encontro desses dois “SELVES”, dessas duas pessoas diferentes.

 O relacionamento é que está "errado". E é sobre ele – o relacionamento – que eu, como terapeuta de casais, procuro focalizar em meu trabalho.

Costumo dizer aos casais a que atendo: "O meu cliente está sentado entre vocês dois."
Esse cliente é uma "abstração", é algo fluido, dinâmico, que se chama “A RELAÇÃO”.
Por que tal afirmação? Cada um dos cônjuges, percebido como um indivíduo, pode ser considerado uma pessoa adorável, gostável, sociável, equilibrada, amiga, inteligente, afetuosa, etc., etc. Mas, quando um se liga ao outro e vive esse papel de cônjuge, surge essa nova dimensão "o relacionamento conjugal”. Esse PRODUTO (o relacionamento conjugal) desses “dois seres formidáveis”, encantadores, etc. pode descaracterizar o que eles, individualmente, são e dar origem ao aparecimento de um contato humano cheio de confusões, caos, incompreensão, bloqueios da racionalidade, explosões da emoção, desamor...

Principalmente, quando um casal é formado por pessoas tão bonitas, interessantes, inteligentes, afetuosas, etc., as pessoas que vivem próximas a elas têm dificuldade para entender "por que aquele casamento, não deu certo". Dizem: "Mas eles têm tudo a ver um com o outro. Formam um par tão bonito!..."

Mais uma vez, repito: esse relacionamento é UM PRODUTO e não uma soma ou subtração. Esse produto, tal como ocorre na Química, é uma "combinação" entre duas “substâncias”, as quais, postas juntas, produzem uma substância nova, diferente daquelas que, inicialmente, cada uma delas era. Esse processo é diferente da “mistura”, pois, nesta, as substâncias colocadas juntas mantêm sua integridade total. Não sofrem a influência uma da outra.

 

Ainda seguindo este exemplo, que a Química nos empresta, sabemos que há substâncias que se combinam e outras que apenas se misturam. No casamento, podem ocorrer coisas desse tipo. Entretanto, acredito que, num casamento, não pode haver somente "mistura", pois, se isso ocorrer, não terá havido, realmente, um casamento, houve somente um "lamentável equívoco".  (Continua) 



Escrito por luizbelas às 16h22
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Continuação )

O CASAMENTO E A COMBINAÇÃO QUÍMICA...

Na realidade, todo casamento, para ser assim considerado, precisaria ser semelhante a uma combinação química. Mas sabemos que há combinações e combinações. Algumas dão como resultado substâncias agradáveis, suaves, balsâmicas. Outras, ao contrário, resultam em substâncias ácidas, explosivas, desagradáveis no sabor, no cheiro... É..., acontece assim.

Tudo indica que as combinações que geram produtos agradáveis, etc., como disse no parágrafo acima, tendem a gerar casamentos tranquilos, duradouros. Por outro lado, as que geram “substâncias ácidas”, etc. têm maiores chances de terminar em separação, ou, na pior das hipóteses, gerarem casamentos desarmônicos, com muito sofrimento, para ambos os cônjuges.

Não discutirei, aqui, propositalmente, as relações de casamentos, onde sinais de patologia estão presentes. Por exemplo: há os relacionamentos de casais onde a “combinação” se dá para a manutenção de uma doença que se instala na própria relação, ou seja, os casamentos onde as características da relação servem para alimentar necessidades particulares e patológicas  dos cônjuges. A impressão  que tais relacionamentos despertam nas pessoas que convivem com esses cônjuges  é que  eles, ao mesmo tempo que reclamam fortemente daquela vida ruim a dois,  constroem e mantêm, com tenacidade, aquela relação "indesejada".

Prefiro ater-me, neste texto, àquelas relações mais comuns (das quais temos vários exemplos na família, entre amigos e em nós mesmos, enquanto esposo ou esposa), e enfocar, agora, algumas características de uma relação que nos faz sofrer, por estar FALIDA ou FALINDO.

 

 

ESTÁGIO DE FALÊNCIA

Nesse estágio, os dois parceiros sofrem muito. É um momento no qual eles se dão conta de que "o sonho acabou" - "Não consigo mais manter...” "Onde falhei?..."
Sentimentos desse tipo são comuns e a dor que os acompanha é muito forte.
Quando não há essa dor nos dois, na verdade não houve casamento.
O término de um casamento é uma enorme frustração, pois é a verdadeira descoberta da impossibilidade de transpor a barreira que separa um do outro. É a dolorosa constatação da existência de uma DIFERENÇA, que gera uma total incompatibilidade, entre aquelas duas pessoas. É como se os “separantes” olhassem para o passado, para a história daquela relação, e vissem uma confusão de imagens. Algumas delas, trazendo recordações profundamente belas, e outras, tão doloridas, que desejariam arrancá-las da memória, até o mais fundo de suas raízes, para que morressem no esquecimento, para sempre.

É gosto de mel e vinagre, é calmaria e vendaval... Experimenta-se, ao mesmo tempo, o desejo de SOBREVIVER e, para conseguir isso, um profundo, forte e consciente sentimento: BASTA!!!


 
QUANDO NÃO DÁ MAIS PARA OUVIR, NEM FALAR...


Quando, indiscutivelmente, a relação está falida, ou falindo, é comum a gente perceber, entre outras coisas, o seguinte:

1- A impossibilidade de ouvir o outro.

Eles até falam um com o outro, mas o discurso chega aos ouvidos de cada um deles com enormes distorções. É como se ouvissem, mas não pudessem apreender o conteúdo da mensagem que foi enviada. Essa atitude é, via de regra, bilateral.

2)“Esgrima” passa a ser o esporte mais praticado, no dia a dia.

Embora a maioria nunca tenha praticado a arte da esgrima, os parceiros se armam (os dedos são os floretes) e vivem esgrimindo (apontando os dedos um para o outro), uniformizados com suas capas (suas falas), que bailam entre golpes que partem de ambos os lados.

3) As acusações são respondidas ("defendidas") com acusações.

Nessas falas, o vocabulário é sempre antigo: a queixa é sempre de fatos passados, que não foram resolvidos, que estão engavetados, com poeira, mas que, para cada um deles, parece a última notícia do dia (um furo de reportagem). Cada afirmação é uma acusação. Cada acusação de um gera uma outra acusação contra o acusador. Cada um se protege numa trincheira cheia de munições: mágoas, ressentimentos, tudo isso lançado contra o outro.

4) Os olhares...

Ah!... Os olhares... Num rápido piscar de olhos, transformam-se de serenos para faiscantes. Às vezes, parece que, se pudessem, fulminariam o outro com o olhar. São verdadeiros raios em dias de tempestade.

5) E a fala na terceira pessoa? ELE/ELA

Ele sempre reclama de tudo que eu faço... 

Ela nunca reconhece meu carinho por ela...

 

Nas sessões iniciais de terapia de casais, essa maneira de falar é muito comum. Um fala sobre o outro, como se o outro não estivesse ali presente. É uma fala que mostra como está difícil falar diretamente para o outro e quanto precisam de um interlocutor, um mediador, para que a comunicação possa acontecer.


6) Paralelamente a um comportamento pouco amistoso, durante a sessão de terapia de casal, muitos cônjuges conseguem manter uma aparência exatamente oposta no seu ambiente social, a ponto de poucas pessoas perceberem que “as coisas não vão bem entre eles”.


7) Os ressentimentos surgem no discurso de dois modos:


a) sutilmente:

-"Você poderia ter agido de outra maneira e me feito sofrer menos..."


b) aberta e agressivamente:

 -"Você nunca me considerou uma pessoa. Eu me sentia, sempre, como se fosse uma 'coisa'. Agora, tenho coragem para lhe dizer o que mais desejo: que você sinta e passe por tudo o que eu passei. De preferência, que se sinta pior do que eu me senti”.


8) Dificuldade para assumir sua parcela de responsabilidade nos problemas que existem na relação.


Ainda que cada um admita - racionalmente - ter sua parcela de responsabilidade na deterioração do relacionamento, é comum surgir um discurso onde O OUTRO É  O ÚNICO CULPADO.


9) Os filhos


Embora os filhos possam ser temas no início dos atendimentos, quase sempre ficam como "fundo”, como "cenário" da problemática apresentada pelo casal. Os holofotes sempre ficam virados, na maior parte do tempo, para o marido e a mulher e o desencontro deles.

 
A SEPARAÇÃO É SEMPRE NECESSÁRIA?


Em alguns casos, ela pode ser fundamental, pois há relacionamentos que não apresentam a mínima chance de se manterem saudavelmente.


Apresentarei, abaixo, uma breve descrição dos dois tipos de casais: os que comumente se separam e os que dificilmente se separam.


CASAIS QUE COMUMENTE SE SEPARAM.

 


Tenho observado que as separações ocorrem principalmente quando o casal, ou um dos cônjuges, se apresenta profundamente incapacitado para ouvir, e, portanto, dialogar.
Nesses casos, pelo menos um deles adota uma atitude altamente defensiva. Essa pessoa, em atitude de defesa, geralmente é muito rígida, considera-se absolutamente certa em suas opiniões e verdades, julgando, portanto, o outro como o único, ou o mais, errado. (CONTINUA...)



Escrito por luizbelas às 16h16
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CASAIS QUE DIFICILMENTE SE SEPARAM.


Os casais que dificilmente se separam são aqueles que, mesmo passando por momentos muito críticos no relacionamento, ainda cultivam certo grau de admiração e respeito entre eles. Geralmente são pessoas dispostas a assumir suas parcelas de responsabilidades no processo do desencontro conjugal, desejam rever as bases da relação entre elas e compreender, de fato, o que está acontecendo com o casal. É comum haver, pelo menos em um deles, um apreço grande pela Família e se mostram capazes de lutar bravamente pelo bem-estar das pessoas que a compõem.
Finalmente, pelo menos uma das pessoas desse casal se mostra bastante flexível e capaz de aceitar as diferenças individuais, que existem entre elas.


E OS FILHOS?  QUAIS AS CONSEQÜÊNCIAS DA SEPARAÇÃO PARA A VIDA DELES?


Tudo dependerá do modo como os pais viveram antes da separação, como se separaram (o clima da separação) e como mantiveram o contato com os filhos depois disso tudo.

É fácil perceber-se que, idealmente, tanto os filhos como os pais prefeririam poder viver todos juntos. A família ainda é uma instituição desejável e importante.
Quando há uma separação, a frustração é geral (para pais e filhos), pois ela impede que uma série de sentimentos e vivências de relacionamento ocorram, já que o contexto "lar" está definitivamente desfeito.

"Lar" é, para todos os seres vivos gregários, o núcleo, a segurança, o lugar onde o afeto acontece mais plenamente. Não ter mais o "lar" é ficar num espaço sem forma, sem cor, sem textura, sem peso, sem tamanho definido... Não ter mais um "lar" é muito ruim e não é à toa que os filhos e os pais também choram quando há uma separação,  principalmente quando ela ocorre por incompatibilidade entre duas pessoas amorosas: é uma perda irreparável. Entretanto, não podemos deixar de pensar que essa perda é apenas uma parte do todo: da parte boa, gostosa, construtiva...

Não nos podemos esquecer de que, quando falamos aqui na separação, ou nos casais que comumente se separam, as pessoas que compõem essa família raramente experimentam esse lado tão gostoso, sadio. Ao contrário, vivenciam momentos de muito sofrimento, de muita dor, de muita insegurança, de enormes frustrações... Nesses casos, será que poderíamos afirmar que existiu, ali, realmente um "lar"?

Penso que, tanto para os pais como para os filhos, quando o "lar" já não existe, ou existe somente como um "lugar geográfico”, um "dormitório", um "refeitório" ou uma "agência bancária" (mesada, pagamento de contas... ) e, além disso, o afeto já está rarefeito e os contatos entre pais e filhos são somente tangenciais,de fato, o LAR deixou de existir há algum tempo.

 

Retornando, acho que os filhos preferem ter seus pais morando com eles. Mas é evidente, também, que valorizam um lar equilibrado, onde a estabilidade emocional, o afeto e o respeito sejam elementos muito presentes. Brigas e discussões não fazem, forçosamente, de um lar um ambiente somente negativo,  quando elas representam, somente, sinais das diferenças entre os pais, não provocam afastamento do casal. Esses desencontros não geram problemas quando, na relação, ficam evidentes o respeito pelo outro e a busca de um “acordo final”, que resulte numa melhoria para a família como um todo.

 

As brigas do casal em "fase terminal" são quase sempre "sem sentido”. São baixas, desrespeitosas, agressivas e, geralmente, não visam nenhuma melhoria para o grupo familiar. Essas brigas são profundamente prejudiciais para os filhos e, geralmente, são fontes geradoras de problemas, atuais e futuros para eles. Nesses casos, a possibilidade de os pais virem a formar novas famílias, mais equilibradas, pode ser uma chance para os filhos vivenciarem um clima de paz familiar, de estabilidade emocional e afetiva de um casamento. SE isso vier a acontecer, terá valido a pena a separação, pois os filhos se beneficiarão desse novo contexto, tão importante e necessário para desenvolverem, mais equilibradamente suas experiências de vida e conhecerem um modelo de relacionamento homem-mulher mais saudável.

 

TENTANDO UMA CONCLUSÃO


Através desta pequena exposição, sobre um tema tão vasto e complexo, onde tentei deter-me em alguns pontos que considero fundamentais para se realizar um trabalho de ajuda psicológica a casais, podemos concluir que os casais podem  beneficiar-se de uma ajuda desse tipo, desde que sejam observados dois aspectos: quando buscar ajuda e o que esperar desse tipo de atendimento.


Quando buscar ajuda?


O ideal é que não se deixe acumular muitos "desencontros" por longo tempo. Os ressentimentos acumulados funcionam como um corrosivo nas relações, impedem a comunicação e provocam sentimentos que vão construindo um afastamento progressivo de um em relação ao outro. Geram frustração, diminuem  a consideração e o afeto  entre o marido e a mulher.


O que esperar desse tipo de ajuda?


Um grande número de casais tem problemas no casamento em decorrência da não aceitação, por parte de um ou dos dois, do fato de serem diferentes na forma de pensar ou de agir. Essa “dessemelhança” provoca uma dificuldade para eles se entenderem. A reação de oposição do outro é identificada como uma ação de retaliação, de agressão. A comunicação, progressivamente, piora e o afastamento surge de modo quase inevitável. Através desse tipo de ajuda, esperamos criar uma condição favorável para que o casal possa ver, mais claramente, esse fato (a diferença) e, além disso, entender as consequências da não compreensão e da não aceitação dela, na qualidade da relação que os dois estão vivendo.


E O AMOR, ONDE FICA NISSO TUDO?


Talvez, para quem leu este artigo todo, tenha ficado a sensação de estarem faltando muitas coisas a serem discutidas sobre o tema casamento. Entre elas, ficou faltando uma que se escreve com uma poderosa palavrinha pequena. Essa minúscula palavra acompanha a gente, durante toda a nossa vida, principalmente quando o assunto é casamento -  Amor.


Propositalmente, não falei nele de forma explícita. Isso já é feito, fartamente, em qualquer livro, ou documento, que se proponha a refletir sobre o relacionamento entre seres humanos. Mas, se perceberam bem, o sentimento amor está permeando todo esse artigo, das mais diferentes formas.


O amor, para mim, não deveria ficar restrito às cenas românticas ou sexuais. Parece que nos acostumaram a associá-lo a essas situações. Os filmes e as obras literárias fazem tais associações, quase sempre.


O Amor está, contundentemente, contido na proposta de entendimento entre as pessoas, na vontade de encontrar modos de construir relacionamentos mais verdadeiros, mais sinceros. Por isso, mesmo quando um casal opta por se separar, depois de um esforço conjunto para chegar a uma compreensão do que está dificultando o relacionamento deles, o amor poderá continuar plenamente presente. Isso acontecerá  se eles conseguirem aceitar um ao outro e a si mesmos, de forma sincera e profunda. Dessa forma, estarão dando uma prova plena de respeito, de consideração e, portanto, de amor.

Não é o amor que consolida um casamento. Não é o que faz com que as pessoas casadas permaneçam juntas. É o resultado do encontro bem sucedido delas.
Tão pouco entendido, tão pouco verdadeiramente vivido, o amor, misturado com outros sentimentos, às vezes parece ficar limitado às manifestações de dedicação, de doação, de desprendimento, de anulação de si, de abdicação de si pelo outro. Não concordo com isso. No amor, no qual acredito, o amado não pode anular o amante.
As pessoas que, em nome do amor pelo outro, se anulam, verdadeiramente não amam, nem o outro, nem a si mesmas. Esse amor é tudo
, menos amor. No casamento, o verdadeiro sentimento de amor se apresenta como uma proposta de compreender, aceitar, mudar, construir, reconstruir a relação e, portanto, reconstruir a vida do casal.


Mas  tudo isso  precisa ser feito a dois. Se apenas um se empenhar para que a relação sobreviva, é bem provável que ela morra. Morrendo a relação, somente em condições muito especiais o amor sobreviverá.

CONTINUA-------------------------------



Escrito por luizbelas às 16h10
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CONTINUAÇÃO TERAPIA DE CASAIS

PERGUNTAS E RESPOSTAS


P - Li o seu artigo. Está muito bom, mas há uma questão que acho que teria um
peso na vida conjugal: a sexualidade. Quando ela não está bem, quando não há tesão e a intimidade e a cumplicidade acabam, mesmo que o casal tenha respeito e consideração. Se pudesse me explicar melhor isto...


R - Caro Internauta,

Sem dúvida, a sexualidade é um ponto importantíssimo no casamento. Eu diria até que o que caracteriza esse tipo de relacionamento a dois é a presença, nele, de uma vida sexual. Ela é tão relevante que, juridicamente, se torna decisiva, quando, por exemplo, fica provado que um dos cônjuges se nega a ter uma vida sexual com o outro. Isso pode ser motivo suficiente para justificar um pedido de separação. Mas, o que me parece significativo nesse contexto do casamento, além, é claro, da vida sexual, é realmente o RELACIONAMENTO entre essas duas pessoas que vivem juntas.

O que você questiona ("A sexualidade quando não está bem, quando não há tesão, a intimidade e a cumplicidade acabam, mesmo que o casal tenha respeito, consideração.") é, no meu modo de ver, muito mais uma consequência do que uma causa.

Pensemos em dois jovens que resolveram se casar. O que é mais comum, nesses casos, tirando as situações onde se possa dizer que não há, realmente, interesse de um pelo outro, onde não há, necessariamente, amor, romance... etc., é a presença do interesse sexual entre eles.

É evidente que existem pessoas que se unem somente para resolver outras questões, situadas fora do casamento (fugir da família, conseguir independência,...), todavia, esta não é a regra geral, concorda? Então, o que temos agora? Os casamentos começam - via de regra - num contexto onde o tesão está presente, mesmo que minimamente. Há, neles, cumplicidade e intimidade (movidas, mesmo que precariamente, pelo tesão, pela novidade, pela curiosidade...). Supondo-se que seja um casal medianamente equilibrado, amadurecido, etc., o respeito e a consideração provavelmente estarão presentes também.

Teoricamente, a maioria dos casais inicia sua vida conjugal com possibilidades grandes de realizar o sonho que foi cultivado em nossa cultura: "viverem felizes para sempre", "até que a morte os separe..." Mas, o que poderia levar tudo isso a ser quebrado? Penso que esquecemos de uns detalhes simples, mas importantes, que nos poderiam ajudar a compreender um pouco o que acontece numa relação de casamento, é uma relação humana muito especial. Não há nela o mesmo nível de liberdade que existe em outros relacionamentos, no que diz respeito ao "esfriar" os ânimos que se alteram durante um desentendimento.

Entre amigos, ou colegas, quando há um desentendimento, cada um procura ficar um pouco longe do outro, esfria a cabeça. Eles “dão um tempo”. Entre marido e mulher, esse tempo e essa distância quase não existem e, com isso, é comum que pequenos desencontros fiquem mal resolvidos e a eles se somam novos desencontros e, assim, sucessivamente. Com o passar do tempo, essas mínimas situações de desencontro vão-se acumulando, ainda que se pense que elas tenham sido dissolvidas. É aquele jantar que não aconteceu, porque ele se esqueceu de chegar a tempo, pois estava tomando uma cerveja com os amigos, depois de um dia de trabalho exaustivo.

É o gasto a mais que ela fez, com o cartão de crédito, para comprar um presente para uma amiga, que não é lá tão próxima dele e que não faz a menor questão de se mostrar simpática ou amistosa. Note que cada um deles tem seus motivos para considerar que o que fez não foi nada demais. Entretanto, em relação ao outro, cada um considera que aquilo foi um gesto de desconsideração, ou equivocado, ou errado. Surge aí um ressentimento recíproco.

Situações como estas, repetem-se no dia a dia. Elas vão minando a relação e, com isso, a vida sexual dos dois acaba sendo atingida. Dependendo do grau de sensibilidade, de amadurecimento de cada um, da capacidade de superação de problemas, etc., etc., não há dúvida de que o tesão vai acabando e a vida sexual, declinando.
É claro que essa questão é bem mais complexa do que pude mostrar nesta breve resposta. São inúmeras as variáveis que interferem no bom funcionamento de uma relação conjugal. Mas, para somente situar um pouco mais sobre o que foi questionado por você, reafirmo o seguinte:

A qualidade e a importância da vida sexual no casamento é diretamente proporcional ao grau da qualidade da relação humana que o casal é capaz de construir e manter.






Escrito por luizbelas às 16h06
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EDUCAR/LIBERDADE:  Usos e Abusos

 

J.L.Belas - março de 2009

 

INTRODUÇÃO

 

Este texto surgiu após constatar, no trabalho clínico, que muitos pais se sentem confusos, tensos, frustrados, tristes... com a forma de os filhos se comportarem em relação a eles.

Certamente, o que apresento, aqui, é uma pequena parte de um problema bem mais complexo, construído sob a influência de muitas variáveis. É interessante ressaltar, também, que esses comportamentos, tão "indesejados", segundo as afirmações dos pais, ocorrem com mais frequência entre jovens procedentes de setores da nossa sociedade, que, há algum tempo atrás,  eram conhecidos como "classe média".

Há muitos jovens cujos pais souberam dosar a liberdade que lhes deram. Isso, sem dúvida, fez uma boa diferença na vida adulta deles, hoje. Mas, muitas crianças também receberam essa mesma orientação dos pais e, ainda assim, não amadureceram como era o esperado.  Constatando isso na minha vivência clínica, orientando famílias e pais, costumo dizer, quem sabe exagerando, sei lá:

"Os pais se julgam muito poderosos e pretensiosos quando acreditam que sejam os únicos responsáveis pela educação e pela formação dos filhos. Eles contribuem, sim, com uma parcela importante na formação de valores básicos, principalmente aqueles que a criança absorve a partir do convívio direto com a família. Os pais são modelos básicos. O mundo  completa o resto. Nada do que apresento, neste texto, poderá ser considerado como "uma afirmação categórica, uma conclusão, uma verdade absoluta”. Entretanto, a frequência com que tais fatos surgem na clínica me leva a suspeitar que o que escrevo aqui não parece estar muito longe da nossa realidade atual.

 

         

          ANOS 60 -  ALGUNS DE SEUS REFLEXOS

 

Quem, como eu, viveu profissionalmente num ambiente escolar nos anos 70, certamente não deixou de ler alguns livros publicados naquela época. Eles eram, quase, uma leitura obrigatória. 

Em 1970, no Brasil, foi publicada pela IBRASA, SP, a 9ª Edição de um dos livros mais discutidos, lidos e questionados naqueles tempos:  Liberdade sem Medo (Summerhill), de autoria de A.S. Neill.

A primeira edição desta obra ocorreu em 1960 e foi publicada pela Hart Publishing Co. As ideias lançadas por Neill se basearam na sua experiência de quase 40 anos numa escola moderna (Summerhill), fundada em 1921, na aldeia de Leiston, em Suffolk, Inglaterra. Seus relatos  sobre o que se vivia nessa escola ficaram conhecidos no mundo inteiro como uma revolução no campo da Educação.

Muitas polêmicas e muitas desconfianças na filosofia educacional daquele autor foram deixando claro o quanto suas propostas se distanciavam do que era praticado, até então, na maioria dos estabelecimentos de ensino existentes naqueles tempos.

Também nos anos sessenta, década das grandes mudanças no mundo, no que se refere à busca que o homem empreendeu na conquista da liberdade e na negação à opressão, outro pensador começou a ser conhecido no ocidente, refiro-me a Kahlil Gibran.

Creio que, não por acaso, no livro Liberdade sem Medo, Neill, logo no início, antes mesmo de sua introdução, apresenta uns versos, cujo tema é Pais e Filhos, contidos no livro O Profeta, de Kahlil Gibran, obra muito conhecida e reverenciada pelos povos árabes. 

Educação, liberdade, amor, compreensão, aceitação, respeito são algumas das inúmeras palavras que norteiam as sugestões que esses autores apresentam  como ingredientes fundamentais para a educação e o desenvolvimento das crianças, seu crescimento e, como desdobramento disso, uma possibilidade de mudança da qualidade de relacionamentos entre os seres humanos.

Na educação tradicional, digamos assim, onde a figura do educador era marcada por seu papel de formador, modelador, repressor e punidor, não havia lugar para a concessão de liberdade. O educador era a pessoa que possuía a “luz” e o aluno, o que vivia na “escuridão”. Caberia ao professor iluminar o caminho do seu discípulo. Mestre, portanto, seria aquele que sabe o que é melhor para o seu discípulo e que tem como meta colocar o seu educando na estrada do saber, do bem e do certo. Os modos utilizados para conseguir seus objetivos eram todos válidos, pois os meios justificavam os fins. Liberdade era algo perigoso, pois, se o aluno e/ou o filho andassem pelos próprios caminhos, poderiam perder-se dos outros e de si mesmos, não conseguiriam a tão desejada sabedoria e se tornariam pessoas marginalizadas, fora dos padrões aceitos por seu meio social.

Numa época onde muitos tinham uma visão tão negativa em relação ao potencial que a liberdade possuía como promotora de um crescimento positivo e saudável das crianças, textos como o de Kahlil Gibran talvez viessem a se mostrar, paradoxalmente, o “sumo bem” e o “sumo mal”.

O Bem, já que, no fundo, todos os pais e educadores o estavam buscando. Era um ideal sonhado. O sonho de Liberdade que almejavam para eles próprios.

O Mal, pelo medo que experimentavam em relação à Liberdade, este sentimento que desconheciam, por não o terem vivido concretamente.

                  

E uma mulher, com um bebê no colo, disse:

 

Fala-nos de Filhos.

E ele disse:

Vossos filhos não são vossos filhos.

São os filhos e as filhas da aspiração divina pela vida.

Vêm por vosso intermédio, mas não de vós;

E embora estejam convosco, não vos pertencem.

 

Podeis conceder-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos;

Pois têm seus próprios.

Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;

Pois elas abrigam-se no amanhã, que não podeis visitar nem mesmo em

         sonho.

Podeis esforçar-vos  por ser como eles, mas não procureis torná-los iguais

         a  vós;

Pois a vida não segue para trás nem retarda-se com o ontem.

Sois os arcos com os quais vossos filhos são lançados qual setas vivas.

O Arqueiro aponta na direção do infinito, e vos curva com Sua força para

          que suas flechas sejam lançadas, rápidas e certeiras, para bem

          longe.

 Ao deixar-se encurvar pelas mãos d´O Arqueiro, sede felizes;

Pois assim como Ele ama a seta que voa, ama também o arco que é estável.

                            GIBRAN, Kahlil – O Profeta, RJ: Ediouro, 2001- pág.19

 

                           

Neste belo poema de Kahlil Gibran, a ideia maior, a meu ver, reside no desapego.

Crie os filhos para o mundo, para serem livres e buscarem seus próprios caminhos.

Ame-os e deixe que eles sejam eles. Caminhantes de seus próprios caminhos.

Ajude-os a se lançarem e confie neles.

 

Neill, tudo indica, compartilha com Kahlil Gibran dessa mesma ideia.  ( continua...)



Escrito por luizbelas às 15h56
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 Continuação....

O livro Liberdade sem Medo é prefaciado pelo conhecido psicanalista Erich Fromm, profissional que recebeu grande influência dos culturalistas. Uma de suas obras mais conhecidas tem como tema Liberdade.

Nesse prefácio, Fromm começa esclarecendo como a idéia de liberdade, democracia e autodeterminação já era proclamada, durante o século dezoito, nos escritos de vários pensadores considerados progressistas, e, na metade do século vinte, tais ideias foram incorporadas ao campo da Educação. Propôs-se, então, uma substituição da autoridade pela liberdade,“ensinando-se a criança sem uso da força” (1- pág. XVII). Os resultados nem sempre foram positivos e muitos fizeram a proposta para que essa filosofia fosse posta de lado.

Fromm, questionando esse malogro, afirma que essa ideia de liberdade não é errada, mas cabem algumas reflexões sobre o sentido que ela carrega. Ele nos fala sobre a “natureza da liberdade” e, para isso, procura estabelecer uma diferença entre “autoridade manifesta” e “autoridade anônima”.

Na primeira, ela é exercida direta e explicitamente, tudo é falado com franqueza pela autoridade. Ex.: “Você deve fazer isto. Se não fizer, receberá um castigo”.

Na segunda, a autoridade esconde a força que está usando: há um faz de conta que não há autoridade. Ex: “Tenho certeza de que você gostará de fazer isto”.

A autoridade manifesta usa a força física, a autoridade anônima, a manipulação psíquica.

Na educação progressista, usou-se do autoritarismo por meio de persuasão e coação ocultas. Daí o seu fracasso, pois a verdadeira liberdade não pode ser construída através delas, ou seja, através da manipulação e da coação.

Desde o seu primeiro livro, Liberdade sem Medo, Neill deixa claro que a autêntica liberdade e autonomia de uma criança só será construída se não nos esquecermos de deixar bem claro para ela os limites, as fronteiras da realidade na qual vive.  Mas fica muito claro, também, que os educadores (pais e professores) demonstraram sempre suas dificuldades para compreender, exatamente, onde se situavam esses tais limites.

Em 1967, Neill lançou outro livro chamado Talking of Summerhill,  que foi traduzido para o português como Liberdade na Escola, e editado pela IBRASA, em 1969.

Em 1968, esse mesmo autor lançou um outro livro chamado Freedom – Not Licence!, traduzido para o português com o título Liberdade sem excesso, editado também pela IBRASA, em 1969.

Esses dois parágrafos, imediatamente acima, nos fazem ver a velocidade com que essas ideias educacionais tomaram conta de escolas, professores, pais e outros profissionais, interessados em educar crianças e delas tratar. 

Mas cabe também notar que os dois livros que mencionei após o Liberdade sem Medo vieram praticamente para esclarecer as ideias contidas nele. Percebe-se que houve muitos mal-entendidos, muitas distorções, principalmente de alguns conceitos, mas, principalmente, do que se referia à LIBERDADE.

Os educadores tiveram dificuldade para entender o verdadeiro significado de tal palavra e lhe emprestaram sentidos que comprometiam a principal coluna da construção de seu sistema educacional.

No livro Liberdade sem Excesso, logo no início surge o que ele denominou de “Qual o assunto deste livro?” e continua:

“COMO É POSSÍVEL DISTINGUIR ENTRE LIBERDADE E LICENÇA?

Neill, literalmente, explica:

 

Meu editor nos Estados Unidos da América do Norte implora-me que escreva todo um livro explicando esses termos. E diz: - Você deve fazê-lo, porque muitos pais americanos leram SUMMERHILL e se sentem culpados pela forma restrita com que tratam os filhos. Então passam a dizer a esses filhos que, dali por diante, eles estão livres. O resultado, habitualmente, é um garoto mimado, porque bem escassa é a noção que os pais têm do que seja liberdade. Não compreendem que a liberdade é dar e tomar – liberdade para os pais, tanto quanto liberdade para o filho. Tal como eu entendo, liberdade não significa que a criança pode fazer tudo quanto deseje, nem ter tudo quanto queira.

        

         LIBERDADE, SIM! LICENCIOSIDADE, NÃO!

 

         Muitos pais, que tinham filhos pequenos, nos anos 70, usavam a expressão “não reprima”, como bandeira que sinalizava liberdade. E, com a proposta de educar os filhos de maneira moderna, consideravam repressão qualquer atitude sua que pudesse limitar desejos e vontades de suas crianças. “Reprimir as crianças fará com que elas sejam, mais tarde, pessoas inseguras, frustradas, neuróticas, etc., etc..” E, por aí, foi-se criando uma distorção, que teve consequências sérias, que podem ser notadas até hoje...

Presenciamos, a cada momento, jovens adultos  que estão na casa dos 30, mas que ainda se estão buscando, querendo encontrar sua própria identidade, perdida por eles ao longo dos anos. Não conseguiram ser  verdadeiramente adultos, responsáveis pela própria vida.  Há muitos jovens que se tornaram profundamente egoístas, superficiais, fúteis e que não conseguem ter o mínimo respeito pelo outro, possivelmente por nunca terem percebido, e, portanto, aprendido o que seja solidariedade, cidadania. Aprenderam a receber, a ter suas vontades satisfeitas, mas pouco sabem sobre dar de si para alguém. Costumam ter medo de se envolver em relacionamentos profundos, que lhe exijam comprometimento sério com outra pessoa. Parecem eternas crianças que dependem dos pais para existirem, ao mesmo tempo em que tentam negar este fato, mostrando uma irreal independência, inclusive financeira, gastando generosas mesadas em divertimentos de todas as naturezas.

Provavelmente, os jovens que experimentaram a licenciosidade, em vez da liberdade, ainda hoje, mesmo que aparentemente adultos, carregam dentro de si crianças assustadas, com medo da vida, do sofrimento, do trabalho, da responsabilidade diante da própria vida. Costumam ver os pais como pessoas que têm obrigação de continuar patrocinando suas vidas medíocres, fúteis. Tratam seus pais, como se seus escravos fossem.

A criança que conquistou o trono fez de sua casa seu castelo e, dos pais, seus súditos. Tornou-se um “adulto” que sente necessidade de continuar reinando, sem ter a mínima vontade de rever sua realidade, pois, para ele, mudar isso não faz sentido. Afinal qual é o rei que, espontaneamente, abdica de sua coroa, não é?

Esse final ficou parecendo meio fora do contexto, ou, pelo menos, se apresenta com uma linguagem meio solta, pouco “acadêmica”. Mas é isso mesmo. Ela corresponde a descrições que muitos pais me fazem em relação ao modo como seus filhos costumam agir.

Desesperados, angustiados, infelizes e desorientados, eles sempre me fazem as perguntas: “Onde nós erramos?” “Será que eles não gostam de nós?”

Infelizmente, não há como se responder à primeira pergunta. Eles tentaram fazer tudo lhes diziam que era o certo. Mas, como deu errado?   Não deu errado. O resultado é coerente, ainda que indesejado. Só que  o que eles entenderam que seria o certo não era bem assim. Deram licenciosidade e não liberdade. Com isso, o mundo para eles – os filhos – passou a não ter muitas fronteiras, nem limites claros. Eles aprenderam a ter todos os direitos e pouquíssimos deveres e obrigações. Afinal, foram criados como “reis”. Muitos deles, para piorar a vida dos pais, se tornaram "reis tiranos", que só aceitam as leis que eles próprios criam e, é claro, todas a seu favor.

 

Em relação à segunda pergunta, acredito que a reação agressiva dos filhos – dirigida aos pais – não seja, verdadeiramente, uma prova de falta de afeto. Apenas parece representar um comportamento igualmente coerente (ainda que isso possa causar muita tristeza e dor aos pais).  É coerente, já que um "rei tirano" certamente não aceita ser contrariado em seus desejos e vontades. A frustração gera nele uma reação de raiva, direcionada a quem (os pais) lhe "desobedece".   E agora? 



Escrito por luizbelas às 15h51
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Passeando pela orla

09/12/2008 - Há momentos em que a solidão se torna a única saída para se encontrar o equilíbrio interior. Esses momentos são vividos de forma intensa, como um verdadeiro mergulho no fundo da alma, naquilo que...
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PASSENDO PELA ORLA

J.L. Belas

Dezembro de 2006

 

 Há momentos em que a solidão se torna a única saída para se encontrar o equilíbrio interior. Esses momentos são vividos de forma intensa, como um verdadeiro mergulho no fundo da alma, naquilo que de mais verdadeiro há dentro de nós. Essas vivências nos colocam num grau de sensibilidade que chega às raias da “insanidade” e nos mostram cantos muito escondidos, ou perdidos, de nós mesmos.

Quando vivo uma experiência assim, transporto-me para uma dimensão de mim que me é familiar, mas que parece ter ficado esquecida, por muito tempo, nos pontos mais recônditos de minha memória. É uma consciência do meu “existir”. É um reencontro com um Eu que ficou fora de foco por uma boa temporada. Estar “diante dele” me surpreende e me alegra, como se revisse um velho amigo que esteve distante, ou escondido, ou viajando, sei lá, e que, de repente, abre os braços para mim, me acolhe e me convida para um bom bate-papo.

O dia a dia nos carrega como uma maré. Sua mesmice nos leva a viver uma vida que não é, verdadeiramente, nossa, principalmente se não estivermos atentos a isso. Podemos até achar que estamos segurando o leme de nossas vidas, até o momento em que nos damos conta de que “o nosso barco” está numa rota diferente daquela que havíamos traçado, e que estamos desembarcando em “território estrangeiro”. Nesses momentos de nossas vidas, damo-nos conta de que não estamos chegando onde havíamos planejado chegar, e somos, então, tomados por um desconforto no peito, uma sensação de angústia, um sentimento de que “aquele não sou eu” e “aquele não é o meu país”. Surge a vontade de sair correndo, buscar um lugar que contenha o “vírus da paz” e com ela nos contaminarmos por inteiro e, assim, podermos aninhar-nos nos braços da “solidão”. Quando isso acontece, paz mais solidão, surgem as condições favoráveis para o retorno ao estado de equilíbrio interior, para o reencontro de o homem “renascer” em si mesmo.

A saúde mental, tudo me leva a crer, nada mais é do que o encontro de dois EUS que se completam. É o equilíbrio verdadeiro de Mim comigo. O EU, que já conheço de mim, e o eu, que vejo surgir a cada momento, a cada gesto meu, a cada palavra que pronuncio. Esse eu novo, que identifico comigo e que ratifica minha identidade, diz que me estou expandindo como pessoa, crescendo e me tornando mais pleno.

Mas, por que a necessidade de solidão e paz? Por que o outro (uma outra pessoa) pode dificultar esse encontro de Mim comigo.

Ainda que o outro seja importante para que eu possa entrar em contato com algumas partes novas de mim, com aquilo que não consigo ver em mim mesmo, pela ausência de distância entre MIM e mim, há certos momentos em que a presença do outro atrapalha, dificulta essa aproximação e esse “diálogo profundamente íntimo”, intraduzível para qualquer pessoa que esteja além dos limites do meu próprio corpo.

É somente nesse estado de solidão/paz que se torna possível o encontro EU-eu e, consequentemente a autodescoberta, a autoaceitação, a expansão do meu próprio EU e o meu crescimento mais sutil e significativo.

Hoje, andei sozinho pela orla. De carro. Lentamente. Olhava tudo que passava através dos vidros que me isolavam do mundo lá de fora. A música, minha fiel companheira, criava o fundo sonoro das cenas coloridas que se sucediam, sem parar, e que me transportavam para o meu passado, para o meu presente e para o meu futuro. Tudo isso ocorria ao mesmo tempo, como num caleidoscópio a girar, sem parar, alternando figuras lindas, outras sombrias, outras estranhas. Mas eu sentia que todas eram eu, eu, eu... Um eu que se misturava em imagens, sons e sentimentos corporais os mais diversos, mas que guardavam uma unidade: eu.

Durante quase uma hora, andei pela orla. O mar com ondas que lembravam rebanhos de ovelhas, flamejantes pelo sol, que se punha e me brindava com seu colorido ouro avermelhado e estimulava meus pensamentos. Vi pessoas passeando. Outras em pleno trabalho.  Encantou-me ver uma jovem debruçada na janela da casa colonial, na colônia de pescadores. Seu olhar distante, como se esperasse pelo futuro, admirando a bela paisagem que se estendia à frente de sua modesta casa.  O cão vira-lata que corria alegre, como se a vida fosse uma bela canção, e lhe bastasse haver uma tarde calma de verão para poder correr saltitante pela rua, já não tão escaldante, e fazer seu convite aos moradores dali para passearem e afagá-lo como um grande amigo de todos. Mais à frente, dois outros cães brincavam, mordiscavam-se como duas crianças felizes, vivendo, livremente, a descoberta do encontro e da amizade...

Velhos amigos meus, desse local, não mais estavam lá. Suas casas, com novos aspectos, insinuavam que algo havia passado. O tempo havia passado. As árvores que eu vi crianças, agora, já adultas, abrigam carinhosamente as pessoas que por elas passam, dando-lhes suas sombras frescas e aconchegantes, num gesto que talvez poucos possam compreender. Mas, nesse meu momento de solidão/paz, sinto que posso. Posso sentir, de modo extremamente sensível, cada coisa, cada pessoa, cada detalhe da paisagem em transformação, que está diante dos meus olhos.

Esse meu olhar, aparentemente voltado para fora, na realidade é o meu olhar que brota do mais fundo de mim, frutos do casamento da Paz com a Solidão. É olhar de mim para Mim.  Nesses momentos, os meus eus, até então perdidos na lida diária, batem na porta da “minha casa” e pedem para entrar.

E, então, braços se abrem, abraços cálidos e demorados se fazem presentes, como nos reencontros de dois velhos amigos: Eu e eu.

A viagem pela orla foi o caminho do nosso reencontro. E, como é bom tê-lo comigo novamente. 



Escrito por luizbelas às 15h33
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millor fernandes- recortes-obra: A bíblia do caos

MILLOR DEFINITIVO

 

ABDÔMEN – Abdômen, palavra machista significando barriga.  Pra ambos os sexos, ora vejam. Deveria haver também abdmulher.

 

AUTORITÁRIO-  Autoritário é o sujeito que te dá a resposta sem que você faça a pergunta.

 

AUTORIDADE-  O fato de uma pessoa ser grande autoridade em algum assunto não elimina a possibilidade de acertar de vez em quando.

 

AUTOCRÍTICA – Toda vez que, na intimidade do banheiro, ficava nua, ela morria de rir de seus admiradores.

 

AVALIAÇÃO – Todo homem é seu valor multiplicado pela sua autoestimativa. Ou dividido por sua autocrítica.

 

AVÔ – De repente, lendo sobre a vida dos primeiros colonos na América, que morriam por volta dos 40 anos, me dou conta de que avô é uma invenção muito recente.

 

ADIAMENTO  - Não há problema tão grande que não caiba no dia seguinte.

                        -Morrer, por exemplo, é uma coisa que se deve deixar sempre pra depois.

 

ADULTÉRIO – Adultério: quebra de contrato vitalício, civil e religioso, com substituição de sócio sem aviso prévio.

 

ADVOCACIA – A Advocacia é a maneira legal de burlar a Justiça.

 

ADVOGADO DE DEFESA – A notoriedade do advogado de defesa aumenta na medida em que faz  voltar à circulação, com atestado de homens de bem, os piores assassinos, ladrões e contraventores.

 

AFRODISÍACO -  O melhor afrodisíaco ainda  é a carência prolongada.

 

AMBIÇÃO – É fácil a gente se conformar com o que tem. Difícil é se conformar com o que não tem.

 

AMIZADE – Amizade é um amor que não foi pra cama. (Isto  é, até que algumas  vezes vai.)

- O  ruim das amizades eternas são os rompimentos definitivos.

 

AMOR – Lição primeira e única – amor não é coisa pra amador.

-Eterno em amor tem o mesmo sentido que permanente no cabelo.



Escrito por luizbelas às 11h37
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ONDE EU MORO?

 

Onde eu moro?

J.L.Belas

Junho de 2013

Ter três anos mais setenta me ajuda a perceber algumas coisas que, para muitos, parecem complicadas, complexas... Mas, para mim, é apenas uma conclusão óbvia.

Filósofos e outros pensadores certamente já exploraram bastante o tema e, por isso, não pretendo estar “descobrindo a pólvora” com o que relatarei a seguir.

Durante anos trabalhei numa escola. Nela fiz muitos amigos. Alguns deles, depois que saí daquela instituição, nunca mais os vi. Outros, ainda encontro por aí nas ruas movimentadas do lugar onde moro.

Certa vez estava caminhando no calçadão da Praia de Icaraí e encontrei um daqueles amigos da escola que não via há muitos anos. Foi um reencontro gostoso, alegre, como costuma ser quando a gente retoma contato com bons e saudosos amigos.

Ele se aproximou e me disse que há poucos dias atrás havia pensado muito em mim, principalmente por se lembrar de que eu comentara, em um de nossos encontros, haver praticado tai-chi chuan. Esse meu amigo estava passando por uma fase complicada e seu corpo “não ia lá bem das pernas”. Após sofrer um enfarto, procurou, por orientação médica, uma academia para iniciar alguns exercícios que pudessem ajudá-lo na recuperação de sua saúde.

Na academia, o professor sugeriu que, além de o exercício proposto por ele, esse meu amigo também praticasse tai-chi. Imediatamente ele se lembrou da nossa antiga conversa e, ao encontrar comigo, uma das primeiras coisas que me perguntou foi: o que é, de fato, esse tal de tai-chi? Dá pra me explicar?

Estou longe de ser um “mestre” nesse assunto, mas topei o desafio e, usando de uma metáfora, mergulhei no tema.

Perguntei ao meu amigo:

- Onde você mora?

- Moro na rua.., número... , etc.

Perguntei-lhe novamente e ele me deu a mesma resposta, rua tal, numero tal, etc.

Repeti a pergunta mais uma vez e ele ficou meio confuso, como se não entendesse o que eu queria com aquilo.

Frustrado por não me dar a resposta certa, tentou, várias vezes mais, informando o bairro onde morava, o estado, o país, o continente e começou a rir, “jogando a toalha”, desistindo por perceber que jamais me daria a resposta correta.

Eu e ele, ao longo desta conversa, continuávamos andando pelo calçadão. Resolvi então acabar com o sofrimento dele e lhe dei a tão estranha resposta:

VOCÊ MORA DENTRO DE SEU CORPO!”

Ele olhou para mim, meio assustado e precisou de alguns segundos para compreender o que acabara de lhe dizer.

Nosso corpo é o lugar onde moramos!! Acenou com a cabeça, concordando com minha afirmativa.

Expliquei-lhe então:

Sim, o meu ser, minha pessoa, aquilo que identifico como EU, mora dentro de mim. Meu corpo se abriga no local que consta no meu cartão de visita, na minha conta de luz... E, meu EU se abriga no meu corpo. Simples, não é?

Se compararmos o corpo como uma casa, logo perceberemos que não dá pra deixar a casa sempre desarrumada, não por termos “mania de limpeza”, mas pelo fato de isso trazer transtornos e dificultar nosso trânsito dentro dela. Uma casa razoavelmente arrumada facilita nossa vivência mais agradável dentro dela, não é mesmo?

Bem, mas o que tem a ver isso com o tai-chi? Perguntou curioso o meu amigo.

A prática do tai-chi, como eu a percebo, é basicamente uma faxina na “casa”. Ao praticá-lo mergulhamos em nosso corpo, percebendo cada pequena dimensão dele. O tai-chi é, basicamente, uma meditação em movimento. Uma forma de você se centrar em seu corpo, observando seus movimentos, sentindo o que cada músculo, cada tendão, cada víscera, está lhe dizendo naquele instante. Você, o seu EU, entra em contato profundo com a “casa” onde “ele” mora e, nesse encontro, ambos se revitalizam e se harmonizam.

Uma vez alcançado esse estado de harmonia, seu EU não só se equilibra em relação ao seu corpo, mas seu corpo também se equilibra em relação ao seu EU e, ambos, se integram e se harmonizam com a natureza em sua dimensão plena. A PAZ decorre disso. E você a vive durante e após os movimentos suaves que são realizados numa plena vivência dessa arte.

Não foi a toa que o professor da academia sugeriu a prática do tai-chi para o meu amigo.

 



Escrito por luizbelas às 11h33
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O VELHO E SEU NETO

04/11/2011 - Empatia com os idosos
(21 visualizações)

 

 

O VELHO E SEU NETO

(*)

Empatia com os idosos

 

 

Era uma vez um velho muito velho, quase cego e surdo, com os joelhos tremendo. Quando se sentava à mesa para comer, mal conseguia segurar a colher. Derramava sopa na toalha e, quando, afinal, acertava a boca, deixava sempre cair um bocado pelos cantos.

O filho e a nora achavam aquilo uma porcaria e ficavam com nojo. Finalmente acabaram fazendo o velho se sentar num canto atrás do fogão. Levavam comida para ele numa tigela de barro e, o que é pior, nem lhe davam o bastante.

O velho olhava para a mesa com os olhos compridos, muitas vezes cheios de lágrimas.

Um dia, suas mãos tremeram tanto que ele deixou a tigela cair no chão, se quebrando. A mulher ralhou com ele, que não disse nada. Só suspirou.

Depois ela comprou uma gamela de madeira bem baratinha e era ali que ele tinha de comer.

Um dia, quando estavam todos sentados na cozinha, o neto , de quatro anos estava brincando com uns pedaços de pau.

- " O que é que você está fazendo ?", perguntou o pai.

- " Estou fazendo um cocho, para papai e mamãe poderem comer quando eu crescer.".

O marido e a mulher se olharam durante algum tempo e caíram no choro. Depois disso, trouxeram o avô de volta à mesa. Desde então, passaram a comer todos juntos e, mesmo quando o velho derramava alguma coisa, ninguém dizia nada.

 

(*) Conto de Irmãos Grimm, citado em " O livro das virtudes", uma antologia de William J. Bennett

Contribuição : Cecília Caram



Escrito por luizbelas às 16h11
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AUTO-ACEITAÇÃO

04/11/2011 - Um conto de Rajneesh

AUTO-ACEITAÇÃO

(*)

Ser o que se é

 

 

 

 

Ouvi contar um dia, que um rei foi a seu jardim e encontrou árvores, arbustos e flores definhando, secando, morrendo.

Indignado, o rei voltou-se para o carvalho e perguntou o que estava acontecendo:

-"Ah, majestade, eu estou morrendo porque não posso ser tão alto quanto o pinheiro", respondeu.

O rei escutou depois o pinheiro, que lhe disse:

- "Ah, majestade, estou morrendo porque descobri que sou incapaz de dar uvas como a parreira".

Ouvindo a parreira, o rei escutou:

- "Ah, majestade, estou morrendo porque não posso desabrochar como a roseira".

O rei continuou a caminhar, até que encontrou uma flor, o amor-perfeito, florido, viçoso como nunca. Ao indagar-lhe sobre sua formosura, o rei ouviu:

- "Ah, majestade, se você plantou um amor perfeito, é porque queria que eu fosse um amor-perfeito. Eu, então, em vez de ficar me comparando com as outras plantas ao meu redor, pensei:

"COMO NÃO POSSO SER OUTRO ALÉM DE MIM MESMO, TENTAREI SÊ-LO DA MELHOR MANEIRA POSSÍVEL.

Assim relaxei e percebi que eu podia contribuir com a existência apenas com minha singela fragrância".

O amor perfeito, dessa forma, nos ensinou que:

"Somos todos igualmente necessários.

Cada um no seu lugar.

Melhor é a nossa causa".

 

 

 

Contado por Rjneesh

Reescrita: Cecília Caram

Contribuição: Rosângela Alves

 

(*)- Caderno de Contos, pag. 18



Escrito por luizbelas às 16h10
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